quarta-feira, 8 de julho de 2020

Novo Normal no Triathlon



Imagem: No What? ©2020 3AthlonNaVeia.com.br



Aos poucos, as coisas vão voltando, ou melhor, entrando, no chamado "Novo Normal".

Aqui em Santos, onde moro, as academias continuam fechadas.
Mas penso que logo reabrirão, dentro dos protocolos de segurança estabelecidos pelos órgãos oficiais.

As praias já estão abertas sem restrição de horário.
Apenas para atividades individuais e não para lazer, também segundo protocolos.

Já dá para pensar em nadar no mar e correr na praia.

As estradas, para treinar ciclismo, devem estar sem restrições.


Agora vamos aos fatos e já adianto que falo apenas por mim...


Já posso nadar no mar.

Todos os protocolos exigem o uso de máscaras fora de casa.
Bom... Posso ir de máscara até o mar e nadar com ela... Onde?
Na cara é que não é.
A não ser que esteja planejando suicídio por afogamento.

Ah! Coloco a máscara dentro da roupa.
Ao acabar o treino, coloco a máscara molhada na cara e volto pra casa.
Sabemos que a função dessa máscara já foi pro saco, mas estou cumprindo o protocolo.

Aliás, isso vale para o surf também.

Se bem que devem existir recipientes onde se possa colocar a máscara durante  a natação ou surf e mantê-la íntegra para quando sair do mar.


Vamos em frente...


Correr na praia

Ótimo.
Foi a melhor decisão liberar inclusive com horário irrestrito, o que diminui a concentração de pessoas num mesmo horário.

Também, ao contrário das atividades nas calçadas, o maior espaço físico das areias melhora muito a possibilidade de se manter um distanciamento das demais pessoas.

Mas o protocolo é usar máscara, inclusive durante a corrida.
Não consigo.
Quer dizer, consigo... mas, não correndo o tempo todo.
Meus treinos viraram corre.... caminha.... corre.... caminha.... e assim sucessivamente.

Vejo muitos atletas correndo o tempo todo, mas com a máscara no queixo, ou mesmo sem ela.


Ciclismo na estrada

O problema é o mesmo de sempre: segurança física.

Os riscos continuam os mesmos, ou até aumentaram.

Quem dirige com máscara, como eu, sabe que ela influencia um pouco também na visão. Pior ainda para quem dirige de óculos.

Além dos bebuns que continuam existindo, respirando o seu ar alcoólico exalado dentro da máscara.

Enfim, há muito já vinha evitando o pedal na estrada, treinando apenas em locais onde sei que tenho mais segurança.

Fiz alguns treinos nesses locais, evidentemente sem máscara, mas em dias de semana e me mantendo longe de qualquer outro atleta.

Mas, o protocolo manda usar máscara fora de casa.

E no ciclismo? Quem está vendo?

E a galera que está treinando sem máscara e em pelotões?
Sim existem os que fazem isso.

Não vou crucificar ninguém.
Cada um é dono do seu cada um.

Mas, se eu pedalasse em algum pelotão, não aceitaria outro lugar senão o primeiro. kkkkk

Só espero que pensem que, embora possam estar e continuar saudáveis, também podem contrair a doença e, mesmo assintomáticos, transmiti-la para os seus entes queridos.


Ciclismo indoor

Nesta "infinitena" que ainda estamos vivendo, o treinar indoor, principalmente no ciclismo, fez disparar a aquisição de "Rolos".

Do meu ponto de vista isso é bom.
Não a infinitena, os rolos.

No rolo, por vários motivos, temos que treinar o corpo de forma intensa.
Mas, com certeza, treinamos de forma mais intensa nosso psicológico.
Já escrevi sobre isto em um post específico.


Não sei quando as coisas voltarão ao normal, normal mesmo.
Tenho muita fé em que será logo.

Por enquanto, vou me mantendo apenas ativo.
Não dá pra dizer que sejam treinos, nem sequer manutenção.
Servem apenas para perder o mínimo possível.


3AV
Marco Cyrino



sexta-feira, 26 de junho de 2020

Divagações Triathléticas


Pensando muito, mas muito mesmo, nesta época de pandemia, de quarentena, sessentena, infinitena, enfim...

Pensando...

Nós, Triathletas, que nos achamos a última bolacha do pacote, podemos também achar que estamos imunes a tudo isso.
Não, não estamos imunes, nem a isso e muito menos àquilo.

Quanto àquilo... nem vou dizer ao que me refiro.
Não é o direcionamento deste Blog.

Quando nascemos, dependemos de tudo e de todos para sobreviver.
Principalmente de nossa mãe e nosso pai.

Depois, tomamos vacinas (assunto recorrente, hoje), somos amamentados, nos alimentamos...

Vamos para o Primário (isso na minha época), depois para o Ginasial, depois para o Colegial e, se tivermos sorte e dedicarmos muito esforço, chegamos à Faculdade, pós-graduação etc.

Durante esse período, vamos tentando evoluir fisicamente, psicologicamente e espiritualmente.

Então, chegamos à época em que somos imortais.

No meu caso, fiz uma porrada de coisas que hoje não faria, tipo...

  • Correr em volta da Ilha Porchat, pelas pedras...

  • Entrar para surfar num marzão enorme, sem saber se sairia vivo dele...

  • Mergulhar de cima de pedras de mais de 5 metros de altura, dando um “Anjinho”...

  • Pedalar sozinho, por mais de 100 km, numa estrada de trânsito pesado e com muitos assaltos...

  • Fazer um Ironman...

Ôpa! Entramos no assunto.

Fiz meu primeiro Ironman já com muita idade - 50 anos.
Mas, já com muita experiência em Triathlons, em todas as distâncias.

Até hoje, fiz 7 Irons.
O futuro ninguém sabe...

O objetivo deste post é uma singela reflexão para nós, Triathletas, que nos achamos imortais.

Devemos olhar para frente, mas, muito mais, olhar para trás.

Quantos perrengues passamos ?

Quantas vezes passamos perrengues de saúde ?

Quantas vezes passamos perrengues espirituais ?

Quantas vezes passamos perrengues de relacionamentos ?

Quantas vezes precisaremos passar por perrengues para  saber que somos iguais a todos ?

Chegar aonde chegamos, vivendo o que estamos vivendo, olhando para trás e tirando aprendizado do que passamos.

Ainda, é bom sempre olhar para os lados, para quem nos acompanha.

E olhar para cima, para Quem nos guia.


3AV
Marco Cyrino



quarta-feira, 3 de junho de 2020

Histórias e Lembranças de Irons


Semana passada, seria mais uma edição do Ironman Brasil.
Não houve.
Adiada para 08/11/2020, se houver...

Não a faria.
Fiz 7, já meio véio, ou bem véio.

Comecei em 2009, com 52 anos, após a passagem de minha mãe querida, durante o período de treinos.
Dediquei a ela.
Poucos acreditavam que eu conseguiria fazer.
E minha intenção era fazer apenas um.

Mas, já estava no Triathlon, há muuuuitos anos percorrendo todo o longo caminho.
Daí que vieram o 2º, 3º....... 7º...... enfim....

Sempre digo que, se for para fazer apenas um, ainda assim vai valer muito a pena.

Mas, para quem faz mais do que um, é porque os perrengues de todo o ciclo, desde o início até o pórtico, nos ensinaram muito.

Aprendizado de paciência, perseverança, resiliência, abdicação.
Tudo aquilo que pensávamos que não teríamos,
Principalmente por estar na labuta diária, ainda não aposentado.

Concatenar tudo isso com os treinos...

- de natação de 1.500m, 1700 m 1.900 m, e subindo até os 4.000 m;
- de ciclismo de 60 km, 80 km, 100 km, e subindo até os 200 km;
- de corrida de 15 km, 17 km, 19 km, 21 km, e subindo até os 35 km.

Quando chegamos ao dia da prova, acordar às 4:00h da manhã, tomar um café com o qual já estejamos acostumados, ir ao banheiro (fundamental kkk).

Nem vou falar agora sobre os dias anteriores, de preparação de tudo o que iríamos utilizar numa prova de 12 horas (ou mais, no meu caso), bike checkin, deixar tudo nos conformes.

Noite ainda e, depois de entrar nas tendas da transição, começamos a nos preparar para a primeira etapa de quase 4 km de natação.

Já começam aí as confraternizações com os demais atletas, conhecidos ou não.
Ou tentando obter ajuda, ou ajudando os outros.

Começamos a preparar as sacolas para as outras modalidades (ciclismo e corrida), começamos a vestir a roupa de borracha para a natação...
E o cérebro parece que ainda não acordou, ou sequer dormiu.

Saímos da tenda da transição e vamos para a praia, percorrendo um longo caminho. Areia gelada, ar gelado, roupa de borracha parecendo que não aquece nada.

Mega-hiper-super-ultra confraternização com muitos conhecidos, daqui e de lá, que irão fazer essa doideira.

Alguns atletas já na água, se aquecendo.
Aquecer dentro da água? Ah, tá! De minha parte, fico fora mesmo.

Quase que do nada, vem a convocação: todos no curral... em 5 minutos vai ser dada a largada.

Pataquepareo!
Parece sempre a primeira vez.
O "estromgo" vai parar na garganta.
Tudo que pensei sobre minha a posição de largada vai pra casa do garayo.

Nesses 5 minutos, entro no curral, vou tentando me posicionar no lugar em que penso que vai ser melhor.
Tento me aquecer girando os braços descoordenadamente, me ajoelho, me benzo, tento rezar pedindo proteção, olho para o meu relógio, vejo que ainda faltam 3 minutos, dirijo meus pensamentos a Deus, pedindo proteção para mim e todos os que farão essa merda... kkk
Acabo de fazer o sinal da cruz, me levanto, penso em colocar os óculos de natação e...

FUUUUUUUUUUÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ.
BUMMMMMMM !!!!!! (Tiro de canhão).
Foi !!!


Esclarecimento

O relato a seguir é uma mistura de todas as 7 provas que fiz.
Mistura de todos os sentimentos positivos e perrengues.
Enfim, vamos a eles.


Entro no mar procurando manter minha FC (freqüência cardíaca) o mais baixa possível.
Impossível.
Só o stress da largada faz minha FC subir absurdamente.
A água gelada, o mar calmo ou não, também.

O volume de atletas, cada um na sua vibe, uns querendo apenas chegar ao final, outros querendo quebrar o record mundial. Tem de tudo, creiam.


Natação

Já fiz o percurso com o mar storm, logo em meu primeiro Iron.
E já fiz com o mar muito calmo.
Na real, é sempre difícil, por tudo.

Por incrível que pareça, em minhas lembranças ficou a dificuldade do 1º Iron, quando eu esperava muito mais dificuldade.
Mas, com o mar storm e com muito vento, sobrevivi muito bem, treinado que estava.

Lembro que, na 1ª bóia, vi uma galera voltando em minha direção.
Era um "cardume" de atletas voltando antes de fazerem a 2ª bóia, pois ela tinha se soltado e os staffs estavam indo atrás para resgatá-la.

Pensei:
- Vou atrás dela até a África.
- Não quero ser desclassificado por cortar o percurso.

Resgataram a 2ª bóia, e eu e mais algumas centenas de atletas a contornamos, mesmo com um percurso maior.

Lembro que, após a 1ª perna da natação, a gente sai do mar para entrar nele de novo. No curralzinho onde a gente pode pegar um copinho d'água, já ouço a Neuzita gritando:

- "Vai amor"

E o Edney:

- "Marcão... entra mais pra esquerda..."


Transição 1

Já aconteceu de tudo comigo, na T1.

Já saí do mar congelado e nem conseguia me trocar.

Já saí muito bem e fui ajudar um outro atleta que não conseguia tirar a sua roupa de borracha. Daí, levei uma cabeçada (acidental) na boca, que ficou sangrando... e os fiscais não me deixavam sair para pedalar enquanto não parasse o sangramento.

Já fiz também uma bela cagada.
Tentei tirar a roupa de borracha na piscina "congelada" e fiquei com hipotermia.

Acho que minha melhor T1 durou no mínimo 2 horas. kkk


Ciclismo

Essa é a hora em que precisamos ter tudo absolutamente planejado.
Alimentação, hidratação e ritmo de prova.

Sabem aqueles erros que não podemos cometer?

Tem o de não se hidratar e/ou se alimentar direito.

Tem o de se achar, e querer pedalar acima do ritmo em que você treinou.

Tem aquele de querer ganhar do vento contra.

Tem o outro, de não entrar num pelotão.
Bom, isso não é erro, é honestidade, mesmo vendo que ninguém nos pelotões foi punido.
Xá prá lá...

E tem o erro de avaliar mal a situação climática, tipo chuva durante a prova inteira, e não me preocupar com água, terra, lama entrando em minhas meias (e o que isso poderia causar na corrida).

Erros de empolgação, erros de forçar muito em subidas e sentir uma lesão onde nunca tinha tido.

Bom, cometi todos.


Transição 2

Depois de tantos erros na natação, na T1 e no Ciclismo, como poderia acertar na T2 ?

Acertei uma vez...
Foi no Iron em que senti uma lesão na perna, durante o ciclismo, e tive que fazer os últimos 90 km usando apenas a outra para empurrar.
Depois de 45 km assim, comecei a sentir a mesma lesão na outra perna.
Enfim, pedalei os 90 km revezando entre uma perna e outra --- média de 25 km/h.
Só que tive todo o tempo do mundo para beber e comer de tudo, durante essa parte do ciclismo.

Cheguei à T2 inteiro.
Ôps! Mas, com uma penalização.
Yes, uma penalização.

Tive que ficar por 5 minutos no Penalty Box, na entrada da T2.
Isto, porque estava ao lado de uma menina, a uns 20 km/h, conversando com ela sobre os nossos perrengues.

Reclamação? Nenhuma!

Como diria o Arnaldo, "a regra é clara".
Não pode ficar lado a lado por um determinado tempo.

Só fui besta.

Esses 5 min. de penalização me recuperaram.
Já estava com a FC baixa, por não pedalar forte.
Parado por 5 minutos, a FC baixou ainda mais.

Quando, finalmente, consegui entrar na tenda para a T2, fiz tudo com calma, tudo certinho, com os neurônios funcionando perfeitamente.


Corrida

Coincidentemente, essa foi minha melhor maratona num Iron.

Talvez por ser obrigado a me preservar no ciclismo.
Talvez por ser obrigado a me alimentar e me hidratar bem.
Mas, certeza de que as lesões nas 2 pernas não me prejudicaram, por serem em músculos que não me afetariam na corrida.

Porém, em outra prova, saí da bike com um tempo ótimo, em relação às minhas expectativas.
E "morri" na corrida.

Em outra, estava tão bem treinado para correr, que não me contive na bike, achando que poderia quebrar meu record pessoal.

E, finalmente, quando achei que fiz tudo certo, muito bem treinado para corrida, inclusive para encarar as subidas (ida e volta) de Canasvieiras, veio a chuva durante o dia inteiro... e não tomei as precauções necessárias.

O resultado disso foi bater meu record pessoal na ida e subidas de Canasvieiras, e depois jogar minha prova fora, devido às bolhas nas solas dos pés.
Uma simples precaução ao sair para pedalar teria evitado isso.


Meu orgulho é ter conseguido terminar essas 7 provas com saúde, com apoio e incentivo da minha família.

Por último, quero enfatizar que qualquer um pode fazer um Ironman.
Precisará se programar, negociar com a sua família e seus próximos.
Precisará ter resiliência, força de vontade, persistência.
Mas conseguirá fazer.

Agora, uma pergunta:

Entrou na sua veia, no seu coração?



3AV
Marco Cyrino


PS: No menu do site (à esquerda), o item 7.6.1- Ironman Brasil - Relatos de Provas contém links para os meus relatos (texto, fotos, vídeos) sobre cada um destes 7 Ironmans, ordenados por data, do mais recente para o mais antigo.
Se preferir, clique no link acima.


sábado, 23 de maio de 2020

Seeennnta, que lá vem história...


O Blog é sobre Triathlon.
Mas, o Surf me levou ao Triathlon.
E minha experiência com o marzão sempre me proporcionou uma certa nivelada com alguns bons nadadores de piscina.

Então, hoje vai uma história de Surf.

Era uma vez um Surfista que....
Bom, era eu mesmo.

Trampando ainda como office boy (imaginem quanto tempo faz), na mesma empresa em que labutei por 45 anos até me aposentar, chegou a época das festas de final de ano, sendo que, nas vésperas de Natal e Ano Novo, o expediente se encerrava ao meio-dia.

Depois, havia uma festinha dentro da empresa, pra quem quisesse ficar.
Salgadinhos, refris, cervejas para os funcionários, além de outras bebidas mais requintadas para o alto escalão. Tudo na faixa.

No ano anterior, havia me empapuçado daquelas iguarias que não eram comuns em minha vida.

Nesse ano, creio que com 15 ou 16 anos, já sabia que não "poderia" ficar na festinha. Não por falta de vontade de me empapuçar novamente.

É que, nesse ano, a véspera do Natal caiu numa segunda-feira.
Mas, no domingo, com a nossa galera no Itararé (na verdade a Divisa, ali ao lado da Ilha Urubuqueçaba), surfamos umas ondas pequenas, médias e grandes... e fizemos planos para o dia seguinte.

Estava entrando uma daquelas ressacas de verão, sem nenhuma virada de tempo.

Não tínhamos acesso a nenhuma informação sobre ondulações.
Muito menos entendíamos como o mar poderia virar daquele jeito, sem que o tempo mudasse radicalmente.
Mas, sabíamos que o dia seguinte seria de ondulação enorme.


A galera...

Era composta por gente de "pouca expressão", como Picuruta e seus irmãos Almir e Lequinho, Cisco, Bolina, Molina, Akira e outros feras.

Os não-feras éramos nós... Hamilton, Tatu, Pato Rôco e eu, além de mais outros.


Bom...
Final de domingo, combinamos de surfar na segunda-feira.
Eu iria após o trampo, ou seja, à tarde.


Estava eufórico...

Pelo fato de poder Surfar em plena segundona e por estar com a minha primeira prancha própria (toda furada, pesando uns 15 kg, mas era minha), depois de tanto tempo aprendendo a surfar com pranchas alheias, após ficar na areia por horas esperando alguém sair do mar para me emprestar.

E também para me atirar nas maiores da série.
Não surfava bosta nenhuma, se comparado com os feras.
Mas era atirado o suficiente.
Moleque não tem noção do perigo.


Comunicação na segunda-feira: ZERO.

Não havia celular.
Na empresa, não permitiam atender ligações particulares, a não ser por alguma emergência.
Assim sendo, combinado era combinado.


As distâncias e a ansiedade...

Logo, ia sair do trampo, voar pra casa, ingerir qualquer coisa leve (tipo pão com alguma coisa) e pegar minha prancha pra correr, literalmente, até a Divisa, encontrar a galera e pegar aquelas ondas.

Morava no Macuco.
Saí vazado do trampo e peguei o Circular 91, que ia pelo cais do porto até a Av. Senador Dantas.
Desci e fiz como programado.

Saí com a prancha (sem cordinha, pois na época existiam apenas protótipos desse apetrecho) e fui caminhando rápido e correndo pelas ruas internas, cortando caminho, de modo que não vi a praia em momento algum, até sair no Orquidário.

Grata coincidência, hoje resido em frente ao Orquidário.


Pequena explicação, para quem não mora em Santos.

A Divisa mencionada é a divisa de Santos com São Vicente, na orla da praia.

O Macuco é um bairro afastado da praia, mesmo em linha reta, o que permite imaginar a distância até a Divisa.

Naquela época, ainda não existia o "Píer", denominação errada para o Quebra-Mar, que virou parte da paisagem de Santos.

Naquela época, Santos se interligava com São Vicente pelas praias, sem nenhuma intersecção.

Recentemente, vendo Surfistas pegando ondas no Quebra-Mar, ouvi um adolescente dizer para o outro que Santos era abençoado por ter essa "característica natural" (o Quebra-Mar).

Acabei intervindo e explicando que aquilo não era uma obra de Deus, mas sim uma intervenção urbana.

Não me acreditaram. rsrsrs.


O Marzão...

Voltando...

Cheguei finalmente à Divisa e vi um dos maiores mares que já tinha visto.

A arrebentação muito lá atrás, inclusive muito para trás da Ilha Urubuqueçaba.

Fiquei um pouco na areia, vendo se a galera já estava lá dentro, pois, nas areias não havia ninguém.

Daí, míope que eu era (operei a miopia depois de muitos anos), via algumas coisas passando pelas séries, muito lá atrás.

Imaginei que fosse a galera já pegando as maiores das séries.


A Situação...

Peguei a prancha e simplesmente entrei pelo canto da Ilha.

Remei por mais de uma hora, até chegar lá atrás e constatar que a galera não estava lá.
Apenas eu estava lá.
E que aquilo, que eu imaginava ser a galera, eram troncos, sujeiras, enfim...

Véios!
Acho que vocês não sabem o que é medo.
Medo não, pavor.

Eu lá, sozinho, achando que iria encontrar a galera.
Sim, porque quando a gente encontra a galera, mesmo no maior perrengue, sabe que não está sozinho.


O Perrengue...

Resumo da ópera, o mar estava tão grande, mas tão grande, que, mesmo atirado que eu era, não tinha coragem de remar para alguma onda.

Remava para a praia, pra tentar pegar uma onda menor e sair.
Olhava para o fundo e via uma série entrando.
Então, remava para o fundo, pra não tomar aquela série na cabeça.
E assim o tempo foi passando e o medo aumentando.

Quando dei por mim, já estava começando a anoitecer.

Olhei para a praia e eu estava literalmente de frente para a Ilha Urubuqueçaba.
Nunca tinha reparado naquelas pedras.
Lindas. Tem um triângulo perfeito.

E o instinto de sobrevivência gritando:

Seu fdp !!!
Vaza daí !!!


E rema pra frente, rema pra trás.
Dez, quinze, vinte vezes.
Comecei a conversar com os troncos, arbustos, sujeiras.

Daí, vi as luzes da avenida da praia se acenderem.
Pensei: ou é agora, ou é agora.

Já não dava mais para ver muito bem onde e como entravam as séries.

Nesse momento, o ateu vira carola.
Olhei pro céu e roguei a Deus.


A Saída...

Vi uma coisa escura vindo em minha direção.
Não era pequena, mas não era tão grande quanto as ondas das séries.

Só sei que remei como nunca, mesmo sabendo que estava praticamente em frente às pedras da parte de trás da Ilha.

Consegui entrar nessa onda.
Dropei (descer e fazer a virada na base da onda) e botei pra direita, de back side (de costas pra onda).

Na minha memória, hoje me parece que a onda seria ótima para fazer várias manobras da época, tipo uma rasgada, um cut-back, ou outra.

Mas, naquele momento, ela só parecia ser minha salvação.

E fui "cortando" a onda o tempo todo, sem pensar em fazer qualquer manobra que não fosse para me livrar das pedras da Ilha.

Graças a Deus, quando dei por mim novamente, já havia passado pela Ilha.
E ainda faltava bastante pra chegar à praia, já perto do Canal 1.

Quando notei que a onda iria fechar toda, virei a prancha para a praia e me deitei nela.
Fui de "jacaré" até me sentir são e salvo.


Respirando aliviado...

Saí do mar e da praia com uma sensação incrível.
De raiva, pelo fato de a galera não estar lá, como combinado.
De satisfação, por ter enfrentado e vencido o medo e a situação.
E de agradecimento, por tudo.

Depois, soube que a galera havia tentado, sem sucesso, entrar em contato comigo via Orelhão (aquele telefone público, espécie em extinção).

Tinham feito uma ótima sessão de Surf no "Canal 5", inclusive com o Hamilton pegando um belo tubo.

E eu no perrengue. kkk


Hoje em dia, aos meus quase 63 anos, não me preocupo com o tamanho das ondas. Se houver ondas, vou procurar apenas me divertir.

Meu período de Super Homem já passou.

Se puder relacionar isso com o Triathlon, digo apenas que nunca devemos subestimar a Natureza.

E nunca devemos superestimar a nós mesmos.


3AV
Marco Cyrino