sábado, 12 de novembro de 2016

Ponta da Praia - Parte III


Em 2012 publiquei minha teoria sobre o principal responsável pelo que vem acontecendo na Ponta da Praia e fiz um post complementar em 2013.

Recomendo fortemente a quem estiver realmente interessado e com disposição para entender, que visite e leia atentamente os posts:




Em resumo, apesar de não ser oceanógrafo, tampouco catedrático em matérias específicas relacionadas a esse fenômeno, me julgo com inteligência e experiência suficientes para pelo menos exercer o direito de opinar a respeito.

Inteligência...
Uma pequena definição obtida da Wikipédia: Inteligência tem sido definida popularmente e ao longo da história de muitas formas diferentes, tal como em termos da capacidade de alguém/algo para lógica, abstração, memorização, compreensão, autoconhecimento, comunicação, aprendizado, controle emocional, planejamento e resolução de problemas.
(Modéstia à parte, me considero um ser inteligente.)

Experiência...
Bom.... aí são mais de 50 anos em contato com estas praias, mar, areia e suas constantes modificações.
Atravessando o canal do porto a nado, mesmo sem saber nadar (pelo menos não tecnicamente) junto com meu irmão Alfredo (Editor deste Blog), depois aprendendo a surfar junto com a galera da época de Lequinho, Almir, Cisco e muitos outros.

Muitos anos depois, sempre continuando a surfar, voltei a praticar a natação mais voltada para o Biathlon e depois Triathlon, sendo que o local mais propício é justamente a Ponta da Praia.

Além disso, existe a parte futebolística.
Joguei bola em tudo que é lugar possível aqui na Baixada. Na rua (onde a cada jogo era um tampão de dedão que ia embora), nos campos de várzea que hoje são o BNH da Aparecida. Os campos de São Vicente, Morro da Nova Cintra, Jabaquara, Humaitá (era uma viagem), etc.
E joguei muito mais pelas praias de Santos. Todas.

E corridas ? Nunca parei para fazer contas, mas creio já ter corrido somente pelas areias das praias de Santos e São Vicente (entre a Ponta da Praia e a Ilha Porchat) alguns milhares de quilômetros.

Bom... se isso não for um pouco de experiência, não sei o que mais pode ser considerado, até porque, sempre fui observador.


O emissário submarino e o quebra-mar
Na década de 70, nossas praias ficaram lindas. Pareciam as praias do Nordeste com suas dunas de areia. Eram os trabalhos sendo feitos para a implantação da rede de esgoto que tornou nossa cidade uma das melhores, senão a melhor, do Brasil nesse quesito.

Esquadrinharam a cidade toda (pelo menos na parte nobre) colocando as tubulações de esgoto, retirando as ligações clandestinas que jogavam esses esgotos nos canais.

Na orla da praia, pela areia, na parte mais próxima aos jardins, foram colocadas tubulações que recolhem até hoje esses esgotos e os levam à estação de tratamento, de onde são jogados, já devidamente tratados, a alguns kms de distância da costa, através do Emissário Submarino, um conjunto de outras tubulações feitas com essa finalidade.
Se falhei ou se fui simplista nesta explicação, peço que me perdoem e me corrijam.

Para a construção e implementação desse Emissário, foi construída uma plataforma, quebra-mar, ao lado da Ilha de Urubuqueçaba.

Penso que o ideal para esse tipo de intervenção é que se construam piers. A diferença é que um quebra-mar é uma obra que afeta os fluxos de marés.
Por outro lado, um píer, por ser suspenso, não acarreta essa influência.
Porém, não sou engenheiro (embora meu irmão seja) e não vou discutir a necessidade de ter sido feito um quebra-mar em vez de um píer.


Efeitos...
Para nós, surfistas, na época, foi uma dádiva.
Criaram-se canais, bancos de areia e tudo o mais que faz com que até hoje ali quebrem ondas muitas vezes perfeitas. Embora eu, particularmente, continue preferindo surfar nas ondas da Divisa (entre Santos e São Vicente), mas por outros motivos.

Só que esse quebra-mar deveria ser retirado assim que as obras fossem concluídas e, não sei porque raios não o foi.
O fato é que hoje é impensável retirá-lo.
Já falei algumas vezes que ele se tornou parte da geografia de Santos, como se ali houvesse nascido concomitantemente com a Ilha de São Vicente.
Por falar em ilha, a Ilha de Urubuqueçaba está deixando de ser ilha, tá?

O fato concreto é que o quebra-mar impede os fluxos normais de marés enchentes e vazantes. E ninguém conseguirá me desmentir sem um debate.

Maré vazante
Sai do canal do porto e vem retirando areia e sedimentos em direção a São Vicente. Como sai com mais força de um canal (do porto) retira mais areia e sedimentos de lá. Ao longo do seu trajeto vai depositando isso do Gonzaga em diante. Até porque a areia de Santos é muito leve, fazendo inclusive com que as águas do mar sejam constantemente confundidas com poluídas, devido essa areia toda em suspensão.

Maré enchente (sem quebra-mar)
Começa a retirar areia e sedimentos desde São Vicente e ao chegar perto do funil (canal do porto) vai recolocando tudo em seu devido lugar.

Maré enchente (com quebra-mar)
Começa a retirar areia e sedimentos desde São Vicente e, ao chegar na Ilha de Urubuqueçaba e ao quebra-mar, encontra uma barreira. Logo, boa parte da areia e sedimentos ficarão por ali mesmo, sendo que o restante dará a volta por trás da Ilha.
A falta de correnteza no sentido quebra-mar - Ponta da Praia, do Canal 1 até o Gonzaga, pelo menos, impede a retirada de areia e sedimentos (que foram depositados ali na vazante), correnteza essa que - se existisse - os levaria de volta e os depositaria em seu lugar de origem.

Eu pratico surf ali.
Por exemplo, em frente ao Posto 2, na maré vazante, a correnteza nos joga para o Canal 1 e o quebra-mar. Na maré enchente, ficamos praticamente no mesmo lugar.
Porra!!!

Óbvio que o quebra-mar interrompe esses fluxos naturais.

A maré enchente passa por fora e não tem força, junto à beira-mar, para realizar seu trabalho natural.


Tentativas inócuas
Quando digo que estamos enxugando gelo, não estou brincando.
Ainda há poucos dias, vi uma entrevista com algum responsável pelas tentativas de desassoreamento dos canais 3, 2 e 1... e ele falou a mesma coisa.
E olha.... trabalham pra car...!!!

Mas é um trabalho inócuo.

Tratores, escavadeiras, caminhões basculantes, operários e muito mais, empenhados em retirar areia dos locais assoreados e recolocar na Ponta da Praia. E até mesmo em locais mais próximos do Canal 4.
Vejam o custo disso.
E o resultado? Zero vezes zero.
Ah... mas é como prestar uma satisfação ao povo.

Mais observações
Não sou cego.
Vejo e sei o quanto as outras intervenções humanas estão afetando o planeta.
Sei do aumento do nível dos oceanos.
Ressacas como essas que ocorreram recentemente são fenômenos.
Mas, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Nesta semana, fui treinar e nadei.
Entrei no Canal 6, bem ao lado da mureta, e contornei o "Pirulitinho" à direita e mirei no Canal 5, onde saí do mar.
Nunca vi o mar tão profundo e limpo.
Não havia quase areia em suspensão.
Não digo que a água estivesse como no Caribe, mas estava transparente (bem...amarela) como nunca.
Isso significa que não existe praticamente areia leve, em suspensão, naquela região.
No início me empolguei.... mas depois, nadando, estamos acostumados (eu estou) a inventar estratégias para completar o treino. Na piscina ficamos contando ladrilhos. No mar ficamos prestando atenção em outras coisas.
E percebi que aquela imagem de água muito menos turva era enganosa.
O fundo do mar não tem mais sequer a areia natural. O que restou é uma areia pesada, densa que sequer flutua.


Voltando aos trabalhos do poder público...
Onde acham que vão chegar, retirando areia e sedimentos da faixa seca e levando de volta para o local desassoreado???

Aprendi que, para achar a solução de um problema, temos que identificar a causa-raiz.
E, neste caso, a causa-raiz são a areia e os sedimentos retirados de dentro do mar.

Vão recolocar isso dentro do mar? Como ?

Simples... deixando a natureza voltar a fazer o seu papel.
Não me pergunte como.
Bom... se quiser, pergunte.


Possível solução simples
Não. Minha opção não seria retirar o quebra-mar que, como eu disse, já é parte da geografia de Santos.
Mas, talvez, abrir passagens entre um lado e outro do dito cujo, de forma que o mar iniciasse o seu trabalho.

Penso que teria um custo ínfimo em relação aos trabalhos atuais.


Já ouvi que a responsabilidade é da Dragagem do Porto.
Contestei. Se alguém quiser saber o porque, me pergunte.

Também já ouvi, em uma entrevista no Jornal da Tribuna, uma repórter entrevistando uma oceanógrafa que endossou o que falei com relação à maré vazante. E parou por aí.
Ela, a repórter, perdeu uma grande oportunidade de perguntar por que o mar não faz o seu trabalho durante a maré enchente.

Também já ouvi muitos falarem que o mar está retomando o seu lugar, que Santos era um alagado, etc.
Por esse raciocínio, o Marapé, cujo nome não precisa de interpretação, não estaria a uma distância do mar maior do que já esteve.

Poderia e pretendo postar várias imagens a respeito do que falo, mas sugiro que pesquisem nos sites de busca e comparem como era e como está a nossa Ponta da Praia.
Pior é imaginar como ficará, se ações concretas não forem realizadas.


3AV
Marco Cyrino