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domingo, 9 de agosto de 2026

O corpo não esquece: memória corporal, longevidade e o preço da inércia


Recentemente, em uma conversa despretensiosa com meu irmão, terminamos refletindo sobre as marcas que o tempo e o movimento deixam em nós.
 
Ele me contava sobre as suas experiências na juventude, em esportes principalmente de explosão (karate e 100 metros rasos), enquanto eu relembrava minha própria jornada: os muitos anos de surf e futebol, os longos treinos, os 7 Ironmans completados, a honra de conquistar o 13º lugar no Mundial de Challenge na Eslováquia.
 
Hoje, aos 69 anos praticamente, estou retomando os trotes na praia e o trabalho de força na musculação.
 
E algo que me tem gratificado, além daquela sensação de missão cumprida que acompanha o cansaço, é a velocidade com que o corpo responde.
 
É como se a musculatura, o metabolismo e a mente estivessem esperando um sinal de partida para religar os motores.
 
Essa experiência me fez pensar sobre Memória Corporal, como um todo.
 
 
A memória vai muito além dos músculos
 
Quando falamos em "memória muscular", a ciência costuma explicar o fenômeno através do número de mionúcleos(1) mantidos nas fibras musculares mesmo após longos períodos de inatividade.
 
(E olha que, no meu caso, já se vão quase 8 anos de “semi-inatividade”).
 
Mas, quem viveu o esporte de alto rendimento por décadas, sabe que a memória do corpo é algo muito mais amplo e complexo.
 
Ela é um acervo biológico integrado:
 
Memória Neuro-Articular
O cérebro não esquece os padrões de movimento, a propriocepção(2) e a eficiência biomecânica. A postura para correr, o ritmo da respiração e o recrutamento das fibras musculares corretas continuam gravados no sistema nervoso central.
 
Memória Metabólica e Cardiovascular
Anos de treino aeróbico expandem a rede de capilares, otimizam a função das mitocôndrias(3) e ensinam o corpo a utilizar energia de forma eficiente.
 
Quando voltamos a nos exercitar, o sistema cardiovascular e metabólico "reconhece" o estímulo muito mais rápido do que o de alguém que nunca treinou.
 
Memória Mental e Psicológica
A capacidade de tolerar o desconforto, de manter a disciplina e de escutar os sinais do próprio corpo é algo que se desenvolve no esporte e que permanece para a vida toda.
 
Nossa bagagem esportiva, seja de explosão, como nas corridas de velocidade, ou de alta resistência, como no Triathlon, cria uma poupança biológica.
 
Tempo, Sarcopenia, Longevidade
A partir dos 40 anos, todos nós enfrentamos um processo biológico inevitável: a sarcopenia (perda progressiva de massa, força e qualidade muscular).
 
Se nada for feito, esse declínio se acelera a cada década.
 
Para quem acumulou massa muscular e capacidade aeróbica ao longo da vida, a sarcopenia ainda acontece, mas partindo de um patamar muito mais alto.
 
Porém, essa bagagem não nos torna imunes.
 
Ela apenas nos dá uma vantagem inicial.
O corpo precisa ser provocado para manter o que conquistou.
 
 
O efeito inverso: Inércia Biológica
Durante aquela mesma conversa, lembrei de um caso conhecido: um senhor da nossa faixa etária, na casa dos 60 anos, sem doença crônica diagnosticada (que eu saiba), mas com dificuldades severas para realizar tarefas simples, como caminhar com fluidez, ou subir lances de escadas.
 
Ao que tudo indica, não se trata de uma patologia grave, mas sim do resultado acumulado de inatividade física.
 
Assim como o exercício cria uma memória de eficiência e vitalidade, o sedentarismo prolongado cria uma memória de inércia.
As articulações travam por falta de uso, os músculos atrofiam, os reflexos diminuem e a autonomia se perde.
 
A fragilidade da idade, muitas vezes, não é resultado do tempo, mas da ausência de movimento.
 
Nunca é tarde para reativar a Poupança Biológica
Felizmente, o corpo humano é fabulosamente adaptável.
 
Seja um ex-atleta tentando reconectar-se com sua história esportiva, ou alguém que passou a vida longe dos treinos, o organismo sempre responde ao estímulo adequado.
 
 
Finalizando...
Retomar os meus trotes na praia e o fortalecimento muscular não é uma tentativa de reviver os tempos de Ironman ou o ritmo da Eslováquia.
 
Trata-se de honrar a saúde atual e garantir autonomia para as próximas décadas.
 
Sua história com o movimento determina a rapidez com que o seu corpo responde hoje.
Mas, é a sua atitude de agora que definirá como você viverá os próximos anos.
 
Ah! antes que eu me esqueça.
Nossas panturrilhas, mais conhecidas como as “batatas das pernas”, são o segundo coração do nosso corpo.
 
 
Movimente-se!
O seu corpo saberá como reagir.
 
3AV
Marco Cyrino
 
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NOTAS
 
(1) Mionúcleos
São os núcleos celulares localizados dentro das fibras dos músculos esqueléticos.
Controlam a produção de proteínas e ajudam no crescimento, na manutenção e no reparo do tecido muscular.
Derivam de células especiais chamadas células-satélite.
Quando fazemos exercícios de força, essas células se fundem à fibra muscular e adicionam novos mionúcleos.
 
(2) Propriocepção
Também chamada de cinestesia, é a capacidade do corpo de perceber sua própria posição, orientação e movimento no espaço, sem depender da visão.
Considerada o "sexto sentido" do organismo, ela envia sinais contínuos ao sistema nervoso central para ajustar o equilíbrio, dosar a força muscular e garantir a precisão dos movimentos de forma consciente ou inconsciente.
 
O cérebro recebe dados em tempo real, através de receptores sensoriais chamados proprioceptores, que estão localizados em:
·   Músculos (fusos musculares): medem o comprimento e o estiramento das fibras.
·   Tendões (órgãos tendinosos de Golgi): monitoram a força e a tensão muscular aplicadas.
·   Articulações e ligamentos: identificam a angulação, velocidade e direção do movimento.
·   Ouvido interno (sistema vestibular): atua em conjunto para manter o equilíbrio postural.
 
Importância no dia a dia e no esporte
·   Prevenção de lesões: permite reações rápidas a imprevistos, como corrigir o passo ao pisar em um buraco falso ou tropeçar.
·   Consciência corporal: possibilita caminhar sem olhar para os pés ou, por exemplo, tocar a ponta do nariz com os olhos fechados.
·   Desempenho esportivo: melhora a estabilidade articular, a agilidade e a aterrissagem precisa após um salto.
·   Longevidade: reduz o risco de quedas em idosos ao aprimorar o controle postural.
 
(3) Mitocôndrias
São estruturas celulares conhecidas como as "usinas de energia" do corpo, com destaque para a produção de ATP, a respiração celular e a presença de DNA próprio.
Transformam os nutrientes dos alimentos e o oxigênio que respiramos, na força que a célula precisa para funcionar.
 

sábado, 30 de outubro de 2021

Posicionamento nas provas de contra-relógio, no ciclismo


Silvio Marques, via Publique!

O que vemos atualmente nas provas de ciclismo e Triathlon são profissionais atacando a parte dianteira da bicicleta, em um posicionamento extremamente agressivo.
Tendência ou não, todos com a extensão quase completa do joelho na fase descendente do ciclo da pedalada com a regulagem da altura do banco limitada pela neutralidade entre a dorsiflexão e a flexão plantar dos pés na fase máxima descendente dos pedais.

Avançam o banco em sua máxima possibilidade, alcançando angulações acima dos 80 graus em relação ao eixo do pedal, o que possibilita que, quando em sua extensão máxima de joelho ajustada, a outra perna em sua máxima flexão de joelho ajustada coloca o dorso do pé atrás da linha máxima posterior do quadril, aumentando em eficiência a produção de potência no último quarto descendente da pedalada, direcionando o eixo do ciclo da pedalada não apenas para a frente mas angulando-o também para baixo, diminuindo o arrasto aerodinâmico.

A diminuição da flexão do joelho na extensão máxima do pedal na fase descendente proporciona menor utilização de carga sobre a musculatura dos glúteos, preservando-a em grande parte para a corrida.
O segredo está em equilibrar a diminuição da área de contato da parte traseira da bike com o solo no início do ciclo ascendente da pedalada, com a pressão máxima na frente da mesma na fase final descendente, gerando deslocamento máximo com a potência utilizada, principalmente sobre o centro da bike.

Aos Triathletas é necessário e fundamental considerarem a neutralidade da posição do pé sobre os pedais na máxima fase descendente, vez que aumentar a altura do banco além dessa neutralidade irá gerar flexão ou hiperflexão plantar, que irá gerar contração isométrica da musculatura de panturrilhas, principalmente dos gastrocnêmios em sua cabeça medial, durante todos os ciclos de pedalada. Esse posicionamento, potencializado em horas em cima da bicicleta em provas de longa distância, poderá interferir na qualidade e desempenho da corrida posteriormente, já que são músculos de grande importância usados na corrida. 

Aqueles que têm a possibilidade de treinar adequadamente para uma prova de longa distância devem privilegiar SIM as regulagens na bike com uma abordagem agressiva no período final de treinamentos longos.

Deve-se treinar o fortalecimento e estabilização central (Core), que envolve a musculatura abdominal na parte anterior e a musculatura estabilizadora de coluna e glúteos na parte posterior desse segmento, durante todo o período de preparação para provas de longas distâncias.
Estudos apontam que as lombalgias afetam até 80% da população mundial e é preciso preservar as estruturas envolvidas em todo o esforço da pedalada.

Regulagem com base no conforto apenas para quem não consegue treinar adequadamente os longos braços de cada modalidade durante a fase de preparação.

Hoje em dia é possível ajustar a sua bicicleta adequadamente através de programas e profissionais especializados para se maximizar a eficiência da pedalada e/ou conforto/performance.

E lembre-se.
Com o advento e “moda” das otimizações de performance através de medidores de potência, é muito comum os profissionais cometerem equívocos ao considerarem os padrões médios limiares de produção de potência (FTP) em protocolos de uma hora para ajustes em fases finais de treinamentos.

Considere com o seu treinador fazer os ajustes iniciais através dos protocolos padrões e ir mudando sua abordagem de pedalada após a evolução da performance durante o período dos seus treinos para alguma competição.

Grande abraço e até a próxima !
Silvio Marques

 

 
Agradecimentos ao Silvão, meu Treinador, por esta contribuição.
 
3AV
Marco Cyrino

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sábado, 9 de outubro de 2021

Onde se concentram os seus esforços?



Silvio Marques, via Publique!

Nos feedbacks semanais de meus atletas, após o cumprimento das planilhas, é bastante comum observar uma dedicação maior em realizarem plenamente a parte dos treinos em que possuem melhores habilidades, quando o correto deveria ser o contrário.

Existem várias estratégias para "espremermos" os atletas e minimizar essas diferenças entre as maiores necessidades relativas às deficiências.

Cada treinador deverá desenvolver habilidades EMOCIONAIS para que seus atletas trabalhem à exaustão as deficiências, sem que a performance global seja prejudicada.

Nessas horas, conceitos das relações interpessoais interferem muito mais do que apenas os conceitos do treinamento esportivo.

Elaborar uma planilha de corredor e triatleta não é tarefa simples. 
Mas é o nosso dever juntarmos todas as informações possíveis para fazer o atleta crescer.

Dedique-se, atleta! 
Quando você perceber que os olhos de seu treinador brilham ao falar de você, enfim, você fechou com a pessoa certa.

Conhecimento todos tem. 
Mas poucos se preocupam mais com você do que com o seu cheque.

Venha treinar conosco.
Bons treinos!
 
Silvio Marques

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Agradecimentos ao Silvão, meu Treinador, por esta contribuição.

 
3AV
Marco Cyrino

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