sábado, 23 de maio de 2020

Seeennnta, que lá vem história...


O Blog é sobre Triathlon.
Mas, o Surf me levou ao Triathlon.
E minha experiência com o marzão sempre me proporcionou uma certa nivelada com alguns bons nadadores de piscina.

Então, hoje vai uma história de Surf.

Era uma vez um Surfista que....
Bom, era eu mesmo.

Trampando ainda como office boy (imaginem quanto tempo faz), na mesma empresa em que labutei por 45 anos até me aposentar, chegou a época das festas de final de ano, sendo que, nas vésperas de Natal e Ano Novo, o expediente se encerrava ao meio-dia.

Depois, havia uma festinha dentro da empresa, pra quem quisesse ficar.
Salgadinhos, refris, cervejas para os funcionários, além de outras bebidas mais requintadas para o alto escalão. Tudo na faixa.

No ano anterior, havia me empapuçado daquelas iguarias que não eram comuns em minha vida.

Nesse ano, creio que com 15 ou 16 anos, já sabia que não "poderia" ficar na festinha. Não por falta de vontade de me empapuçar novamente.

É que, nesse ano, a véspera do Natal caiu numa segunda-feira.
Mas, no domingo, com a nossa galera no Itararé (na verdade a Divisa, ali ao lado da Ilha Urubuqueçaba), surfamos umas ondas pequenas, médias e grandes... e fizemos planos para o dia seguinte.

Estava entrando uma daquelas ressacas de verão, sem nenhuma virada de tempo.

Não tínhamos acesso a nenhuma informação sobre ondulações.
Muito menos entendíamos como o mar poderia virar daquele jeito, sem que o tempo mudasse radicalmente.
Mas, sabíamos que o dia seguinte seria de ondulação enorme.


A galera...

Era composta por gente de "pouca expressão", como Picuruta e seus irmãos Almir e Lequinho, Cisco, Bolina, Molina, Akira e outros feras.

Os não-feras éramos nós... Hamilton, Tatu, Pato Rôco e eu, além de mais outros.


Bom...
Final de domingo, combinamos de surfar na segunda-feira.
Eu iria após o trampo, ou seja, à tarde.


Estava eufórico...

Pelo fato de poder Surfar em plena segundona e por estar com a minha primeira prancha própria (toda furada, pesando uns 15 kg, mas era minha), depois de tanto tempo aprendendo a surfar com pranchas alheias, após ficar na areia por horas esperando alguém sair do mar para me emprestar.

E também para me atirar nas maiores da série.
Não surfava bosta nenhuma, se comparado com os feras.
Mas era atirado o suficiente.
Moleque não tem noção do perigo.


Comunicação na segunda-feira: ZERO.

Não havia celular.
Na empresa, não permitiam atender ligações particulares, a não ser por alguma emergência.
Assim sendo, combinado era combinado.


As distâncias e a ansiedade...

Logo, ia sair do trampo, voar pra casa, ingerir qualquer coisa leve (tipo pão com alguma coisa) e pegar minha prancha pra correr, literalmente, até a Divisa, encontrar a galera e pegar aquelas ondas.

Morava no Macuco.
Saí vazado do trampo e peguei o Circular 91, que ia pelo cais do porto até a Av. Senador Dantas.
Desci e fiz como programado.

Saí com a prancha (sem cordinha, pois na época existiam apenas protótipos desse apetrecho) e fui caminhando rápido e correndo pelas ruas internas, cortando caminho, de modo que não vi a praia em momento algum, até sair no Orquidário.

Grata coincidência, hoje resido em frente ao Orquidário.


Pequena explicação, para quem não mora em Santos.

A Divisa mencionada é a divisa de Santos com São Vicente, na orla da praia.

O Macuco é um bairro afastado da praia, mesmo em linha reta, o que permite imaginar a distância até a Divisa.

Naquela época, ainda não existia o "Píer", denominação errada para o Quebra-Mar, que virou parte da paisagem de Santos.

Naquela época, Santos se interligava com São Vicente pelas praias, sem nenhuma intersecção.

Recentemente, vendo Surfistas pegando ondas no Quebra-Mar, ouvi um adolescente dizer para o outro que Santos era abençoado por ter essa "característica natural" (o Quebra-Mar).

Acabei intervindo e explicando que aquilo não era uma obra de Deus, mas sim uma intervenção urbana.

Não me acreditaram. rsrsrs.


O Marzão...

Voltando...

Cheguei finalmente à Divisa e vi um dos maiores mares que já tinha visto.

A arrebentação muito lá atrás, inclusive muito para trás da Ilha Urubuqueçaba.

Fiquei um pouco na areia, vendo se a galera já estava lá dentro, pois, nas areias não havia ninguém.

Daí, míope que eu era (operei a miopia depois de muitos anos), via algumas coisas passando pelas séries, muito lá atrás.

Imaginei que fosse a galera já pegando as maiores das séries.


A Situação...

Peguei a prancha e simplesmente entrei pelo canto da Ilha.

Remei por mais de uma hora, até chegar lá atrás e constatar que a galera não estava lá.
Apenas eu estava lá.
E que aquilo, que eu imaginava ser a galera, eram troncos, sujeiras, enfim...

Véios!
Acho que vocês não sabem o que é medo.
Medo não, pavor.

Eu lá, sozinho, achando que iria encontrar a galera.
Sim, porque quando a gente encontra a galera, mesmo no maior perrengue, sabe que não está sozinho.


O Perrengue...

Resumo da ópera, o mar estava tão grande, mas tão grande, que, mesmo atirado que eu era, não tinha coragem de remar para alguma onda.

Remava para a praia, pra tentar pegar uma onda menor e sair.
Olhava para o fundo e via uma série entrando.
Então, remava para o fundo, pra não tomar aquela série na cabeça.
E assim o tempo foi passando e o medo aumentando.

Quando dei por mim, já estava começando a anoitecer.

Olhei para a praia e eu estava literalmente de frente para a Ilha Urubuqueçaba.
Nunca tinha reparado naquelas pedras.
Lindas. Tem um triângulo perfeito.

E o instinto de sobrevivência gritando:

Seu fdp !!!
Vaza daí !!!


E rema pra frente, rema pra trás.
Dez, quinze, vinte vezes.
Comecei a conversar com os troncos, arbustos, sujeiras.

Daí, vi as luzes da avenida da praia se acenderem.
Pensei: ou é agora, ou é agora.

Já não dava mais para ver muito bem onde e como entravam as séries.

Nesse momento, o ateu vira carola.
Olhei pro céu e roguei a Deus.


A Saída...

Vi uma coisa escura vindo em minha direção.
Não era pequena, mas não era tão grande quanto as ondas das séries.

Só sei que remei como nunca, mesmo sabendo que estava praticamente em frente às pedras da parte de trás da Ilha.

Consegui entrar nessa onda.
Dropei (descer e fazer a virada na base da onda) e botei pra direita, de back side (de costas pra onda).

Na minha memória, hoje me parece que a onda seria ótima para fazer várias manobras da época, tipo uma rasgada, um cut-back, ou outra.

Mas, naquele momento, ela só parecia ser minha salvação.

E fui "cortando" a onda o tempo todo, sem pensar em fazer qualquer manobra que não fosse para me livrar das pedras da Ilha.

Graças a Deus, quando dei por mim novamente, já havia passado pela Ilha.
E ainda faltava bastante pra chegar à praia, já perto do Canal 1.

Quando notei que a onda iria fechar toda, virei a prancha para a praia e me deitei nela.
Fui de "jacaré" até me sentir são e salvo.


Respirando aliviado...

Saí do mar e da praia com uma sensação incrível.
De raiva, pelo fato de a galera não estar lá, como combinado.
De satisfação, por ter enfrentado e vencido o medo e a situação.
E de agradecimento, por tudo.

Depois, soube que a galera havia tentado, sem sucesso, entrar em contato comigo via Orelhão (aquele telefone público, espécie em extinção).

Tinham feito uma ótima sessão de Surf no "Canal 5", inclusive com o Hamilton pegando um belo tubo.

E eu no perrengue. kkk


Hoje em dia, aos meus quase 63 anos, não me preocupo com o tamanho das ondas. Se houver ondas, vou procurar apenas me divertir.

Meu período de Super Homem já passou.

Se puder relacionar isso com o Triathlon, digo apenas que nunca devemos subestimar a Natureza.

E nunca devemos superestimar a nós mesmos.


3AV
Marco Cyrino