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domingo, 9 de agosto de 2026

O corpo não esquece: memória corporal, longevidade e o preço da inércia


Recentemente, em uma conversa despretensiosa com meu irmão, terminamos refletindo sobre as marcas que o tempo e o movimento deixam em nós.
 
Ele me contava sobre as suas experiências na juventude, em esportes principalmente de explosão (karate e 100 metros rasos), enquanto eu relembrava minha própria jornada: os muitos anos de surf e futebol, os longos treinos, os 7 Ironmans completados, a honra de conquistar o 13º lugar no Mundial de Challenge na Eslováquia.
 
Hoje, aos 69 anos praticamente, estou retomando os trotes na praia e o trabalho de força na musculação.
 
E algo que me tem gratificado, além daquela sensação de missão cumprida que acompanha o cansaço, é a velocidade com que o corpo responde.
 
É como se a musculatura, o metabolismo e a mente estivessem esperando um sinal de partida para religar os motores.
 
Essa experiência me fez pensar sobre Memória Corporal, como um todo.
 
 
A memória vai muito além dos músculos
 
Quando falamos em "memória muscular", a ciência costuma explicar o fenômeno através do número de mionúcleos(1) mantidos nas fibras musculares mesmo após longos períodos de inatividade.
 
(E olha que, no meu caso, já se vão quase 8 anos de “semi-inatividade”).
 
Mas, quem viveu o esporte de alto rendimento por décadas, sabe que a memória do corpo é algo muito mais amplo e complexo.
 
Ela é um acervo biológico integrado:
 
Memória Neuro-Articular
O cérebro não esquece os padrões de movimento, a propriocepção(2) e a eficiência biomecânica. A postura para correr, o ritmo da respiração e o recrutamento das fibras musculares corretas continuam gravados no sistema nervoso central.
 
Memória Metabólica e Cardiovascular
Anos de treino aeróbico expandem a rede de capilares, otimizam a função das mitocôndrias(3) e ensinam o corpo a utilizar energia de forma eficiente.
 
Quando voltamos a nos exercitar, o sistema cardiovascular e metabólico "reconhece" o estímulo muito mais rápido do que o de alguém que nunca treinou.
 
Memória Mental e Psicológica
A capacidade de tolerar o desconforto, de manter a disciplina e de escutar os sinais do próprio corpo é algo que se desenvolve no esporte e que permanece para a vida toda.
 
Nossa bagagem esportiva, seja de explosão, como nas corridas de velocidade, ou de alta resistência, como no Triathlon, cria uma poupança biológica.
 
Tempo, Sarcopenia, Longevidade
A partir dos 40 anos, todos nós enfrentamos um processo biológico inevitável: a sarcopenia (perda progressiva de massa, força e qualidade muscular).
 
Se nada for feito, esse declínio se acelera a cada década.
 
Para quem acumulou massa muscular e capacidade aeróbica ao longo da vida, a sarcopenia ainda acontece, mas partindo de um patamar muito mais alto.
 
Porém, essa bagagem não nos torna imunes.
 
Ela apenas nos dá uma vantagem inicial.
O corpo precisa ser provocado para manter o que conquistou.
 
 
O efeito inverso: Inércia Biológica
Durante aquela mesma conversa, lembrei de um caso conhecido: um senhor da nossa faixa etária, na casa dos 60 anos, sem doença crônica diagnosticada (que eu saiba), mas com dificuldades severas para realizar tarefas simples, como caminhar com fluidez, ou subir lances de escadas.
 
Ao que tudo indica, não se trata de uma patologia grave, mas sim do resultado acumulado de inatividade física.
 
Assim como o exercício cria uma memória de eficiência e vitalidade, o sedentarismo prolongado cria uma memória de inércia.
As articulações travam por falta de uso, os músculos atrofiam, os reflexos diminuem e a autonomia se perde.
 
A fragilidade da idade, muitas vezes, não é resultado do tempo, mas da ausência de movimento.
 
Nunca é tarde para reativar a Poupança Biológica
Felizmente, o corpo humano é fabulosamente adaptável.
 
Seja um ex-atleta tentando reconectar-se com sua história esportiva, ou alguém que passou a vida longe dos treinos, o organismo sempre responde ao estímulo adequado.
 
 
Finalizando...
Retomar os meus trotes na praia e o fortalecimento muscular não é uma tentativa de reviver os tempos de Ironman ou o ritmo da Eslováquia.
 
Trata-se de honrar a saúde atual e garantir autonomia para as próximas décadas.
 
Sua história com o movimento determina a rapidez com que o seu corpo responde hoje.
Mas, é a sua atitude de agora que definirá como você viverá os próximos anos.
 
Ah! antes que eu me esqueça.
Nossas panturrilhas, mais conhecidas como as “batatas das pernas”, são o segundo coração do nosso corpo.
 
 
Movimente-se!
O seu corpo saberá como reagir.
 
3AV
Marco Cyrino
 
*** Por favor, faça login antes de escrever seu comentário.
 
NOTAS
 
(1) Mionúcleos
São os núcleos celulares localizados dentro das fibras dos músculos esqueléticos.
Controlam a produção de proteínas e ajudam no crescimento, na manutenção e no reparo do tecido muscular.
Derivam de células especiais chamadas células-satélite.
Quando fazemos exercícios de força, essas células se fundem à fibra muscular e adicionam novos mionúcleos.
 
(2) Propriocepção
Também chamada de cinestesia, é a capacidade do corpo de perceber sua própria posição, orientação e movimento no espaço, sem depender da visão.
Considerada o "sexto sentido" do organismo, ela envia sinais contínuos ao sistema nervoso central para ajustar o equilíbrio, dosar a força muscular e garantir a precisão dos movimentos de forma consciente ou inconsciente.
 
O cérebro recebe dados em tempo real, através de receptores sensoriais chamados proprioceptores, que estão localizados em:
·   Músculos (fusos musculares): medem o comprimento e o estiramento das fibras.
·   Tendões (órgãos tendinosos de Golgi): monitoram a força e a tensão muscular aplicadas.
·   Articulações e ligamentos: identificam a angulação, velocidade e direção do movimento.
·   Ouvido interno (sistema vestibular): atua em conjunto para manter o equilíbrio postural.
 
Importância no dia a dia e no esporte
·   Prevenção de lesões: permite reações rápidas a imprevistos, como corrigir o passo ao pisar em um buraco falso ou tropeçar.
·   Consciência corporal: possibilita caminhar sem olhar para os pés ou, por exemplo, tocar a ponta do nariz com os olhos fechados.
·   Desempenho esportivo: melhora a estabilidade articular, a agilidade e a aterrissagem precisa após um salto.
·   Longevidade: reduz o risco de quedas em idosos ao aprimorar o controle postural.
 
(3) Mitocôndrias
São estruturas celulares conhecidas como as "usinas de energia" do corpo, com destaque para a produção de ATP, a respiração celular e a presença de DNA próprio.
Transformam os nutrientes dos alimentos e o oxigênio que respiramos, na força que a célula precisa para funcionar.
 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Conselhos e mais conselhos


Sobre resiliência x sabedoria

Ter resiliência é, entre outras coisas, saber superar adversidades, dores, momentos ruins, etc. E até mesmo crescer através dessa superação.

Ter sabedoria é entender que, em muitos momentos, a resiliência pode nos prejudicar.

Como em casos de lesões...
Não adianta ter força mental para seguir em frente, sem antes investigar...
Lesão é lesão e a resiliência virá através da paciência para curá-la e não para suportá-la.


Sobre apenas treinar as 3 modalidades

Cadê tempo para fazer todos os treinos de natação, ciclismo e corrida?
Imagina então acrescer treinos de musculação, alongamento, equilíbrio, entre outros.
Nem pensar, né?
Aconselho, sim, a pensar a respeito.
Não sou o melhor exemplo e pago por isso.
Casa de ferreiro, espeto de pau.


Sobre competir apenas para obter resultados

Em primeiro lugar, que tipo de resultados?

De classificação na prova?
De sua evolução?
Existe uma baita diferença.

Resultados em provas, em relação aos concorrentes?
É bom, mas não fundamental. A não ser que você seja profissional.
Mas, então, você já deve ter uma assessoria muito boa em todos os aspectos... ou não, né ?

Sua evolução?
Melhor ainda.
E sempre levando em consideração que cada prova é uma prova.
Apenas para exemplo, fazer o Internacional de Santos, com mar calmo, pouco vento e não muito calor, <ou> fazer, na mesma distância, o TB na USP, com água gelada e pesada, circuito de ciclismo travado e corrida com algumas subidas.
Óbvio que não dá para comparar.
Ainda tem outros fatores como vácuo, transição, etc.

Aconselho a competir apenas consigo mesmo. O que vier é sempre lucro.


Sobre equilíbrio geral

Este, na minha ótica, é o principal tópico.
Equilíbrio.
E falo apenas por mim...
Aqui não vai conselho algum.
Vai apenas a forma como encaro o Triathlon.

Equilíbrio entre fazer por gostar ou fazer por obrigação.
Obrigação de mostrar resultados aos nossos próximos, que na maioria das vezes nem próximos são.
Tô fora.
Faço porque gosto.

Equilíbrio entre gastar o máximo, muitas vezes sem condições financeiras para isso, ou mesmo privando-se de coisas mais prioritárias, para aparecer bem na foto.
Tô fora.
Gasto o necessário para a minha saúde.
Quanto aos equipamentos, uso os que tenho, até estarem quase no osso... e depois eu os dôo (exceto bike, que dá pra usar na troca... rsrsrs).

Equilíbrio principalmente quanto aos nossos relacionamentos.
Não os virtuais, mas os presenciais.
Eu, particularmente, tenho uma família que me apóia e me incentiva. Não tenho problemas com relação a isso.
Mas, conheço alguns que tem. E muitos.

Equilíbrio.
Equilíbrio até mesmo quanto a comer e beber.

Conheço uma piadinha que, em resumo, diz que o cara chegou ao médico dizendo que queria viver até os 110 anos.
O médico o questionou sobre se comia carne vermelha, se fumava, se bebia, se freqüentava baladas, se jogava, enfim, se tinha algum vício.
A resposta foi negativa para todas as questões.
Daí o médico olha bem dentro dos olhos dele e pergunta:
- "Afinal, pra que tu queres viver até 110 anos?"


Sem radicalizar, mas é mais ou menos por aí.

Como diria o Pedro Pedreira (Escolinha do Professor Raimundo):

- "Há controvérsias."

Aloha!

3AV
Marco Cyrino


segunda-feira, 13 de junho de 2016

O Guia das Gorduras para Triathletas


Esta é a nossa versão / adaptação para a matéria The Triathlete's Guide to Fat, publicada por Kim Mueller, no site Ironman.com:


Para melhor aproveitar o conteúdo, leia o artigo com atenção e veja nossos comentários e advertências, grafados em azul.

Mesmo já tendo ocorrido o Ironman Brasil Florianópolis, achamos relevante este post, em primeiro lugar para concluir a série sobre nutrição e alimentação....... e também porque existem provas de Ironman ocorrendo praticamente em todas as semanas do ano.


Vamos ao artigo...

Anteriormente percebida como inimiga dos atletas, a gordura está fazendo um retorno.
Veja como se pode maximizar o uso deste importante macronutriente.


Condenada por muito tempo, devido ao papel que lhe foi atribuído em uma série de problemas de saúde, e limitada pelos atletas em favor dos altamente elogiados carboidratos, a gordura está fazendo um retorno, com mais e mais cientistas de saúde e esportes reconhecendo a sua capacidade de evitar doenças e melhorar o desempenho de endurance [resistência].

Leia esta orientação sobre gorduras, incluindo informações cientificas e aplicações mais recentes em relação ao desempenho em Triathlon.


O básico
Como o nutriente mais denso em energia (fornecendo mais do que o dobro de calorias do que quaisquer carboidratos ou proteínas), a gordura nos fornece não só o combustível tão necessário, mas também ácidos graxos essenciais, necessários para o transporte de vitaminas lipossolúveis [solúveis em gordura] e para a síntese de substâncias similares aos hormônios, as quais são importantes para certos processos bioquímicos e para o crescimento.


Existem quatro tipos de gorduras alimentares: saturada, trans, monoinsaturada, e poli-insaturada.

Gorduras saturadas são encontradas principalmente em produtos animais, incluindo manteiga, queijo, leite integral, carne bovina e carne de frango. Essas gorduras podem também ser encontradas em certos alimentos de origem vegetal, como côco, palma e óleo de miolo de palma, e manteiga de cacau.

Gorduras trans, também conhecidas como óleos parcialmente hidrogenados, são óleos vegetais aos quais foi adicionado hidrogênio, durante o processamento, essencialmente para saturar a gordura, o que ajuda a aumentar a vida de prateleira de um produto. Elas são encontradas em abundância em margarinas, alimentos congelados, massa de pizza, massa de torta, frituras, e alimentos embalados, tais como batatas fritas, biscoitos e bolachas.

Gorduras monoinsaturadas e poli-insaturadas são encontradas principalmente em alimentos de origem vegetal, incluindo abacate, nozes, sementes, azeitonas, bem como em alguns peixes como salmão e atum.


Foi demonstrado que a alta ingestão de gorduras trans e gorduras saturadas de origem animal aumenta o colesterol LDL (o colesterol "menos desejável"), enquanto diminui o HDL (o colesterol "altamente desejável"), além de aumentar a inflamação no corpo humano. Também foi demonstrado um aumento no risco de câncer.

Entretanto, o consumo de gorduras saturadas de origem vegetal é considerado seguro. Na verdade, algumas evidências sugerem que o óleo de côco pode ajudar a facilitar a perda de gordura abdominal, diminuindo assim o risco de diabetes e doenças cardíacas.

Adicionalmente, há evidências de que o consumo de certos tipos de gorduras insaturadas, como ácidos graxos Omega 3, pode evitar a inflamação e a dor muscular, auxiliando assim na recuperação.
Portanto, para benefícios de saúde máximos, os atletas devem se concentrar principalmente em gorduras vegetais e em frutos do mar.


Determinando as necessidades de gorduras
As diretrizes dietéticas atuais, lançadas no início deste ano, não mais se concentram tanto na quantificação da ingestão de gorduras (que anteriormente sugeria um consumo de gorduras inferior a 35% do consumo total de energia), mas sim incentivam a fazer escolhas de gorduras de qualidade, ou seja, evitar gorduras trans e ingerir mais gorduras de origem vegetal.

A American Heart Association recomenda que qualquer pessoa com o risco cardiovascular limite a sua ingestão de gorduras saturadas e gorduras trans a não mais do que 5% a 6% do consumo total de energia, uma boa regra de ouro para todos seguirem. As dietas muito pobres em gorduras (menos do que 30 gramas por dia) não são recomendadas, pois podem provocar desequilíbrios hormonais, perda de massa óssea, e comprometer o desempenho atlético.

Em geral, os Triathletas devem objetivar uma ingestão basal (repouso) de aproximadamente 0,5 grama de gordura por libra de massa corporal magra [aproximadamente 1 grama por kg de massa corporal magra].  Quantidades complementares podem ser ingeridas ao longo de uma temporada de Triathlon, para ajudar a alcançar o equilíbrio energético nos dias de treino com volume particularmente elevado, e para se certificar de que você esteja se beneficiando de seus treinos.  [Veja o conceito de massa corporal magra e outras informações em nosso post O Guia dos Carboidratos para Triathletas.]


Gordura e desempenho de resistência
Estima-se que, durante uma competição de Ironman, sejam queimadas de 7.000 a 10.000 calorias.
Por isto, o desempenho no dia de prova é altamente dependente da habilidade do Triathleta para sustentar uma alta taxa de gasto de energia por mais de 9 horas, com as fontes de combustível disponíveis. Uma das fontes de combustível do corpo, os carboidratos, permite uma reserva muito pequena, armazenando um total de somente 2.500 calorias (como glicogênio) entre os músculos e o fígado.

Em uma prova de Ironman, isto fornece combustível suficiente para levar um Triathleta ao longo da natação e da parte inicial de uma perna de ciclismo, antes que surjam a tontura e a extrema fadiga muscular.
A gordura, entretanto, possibilita uma  reserva gigante, armazenando cerca de 50.000 calorias, o suficiente para várias provas de Ironman. Treinar o corpo para se tornar uma máquina de queima de gorduras é uma parcela enorme do esforço para o sucesso, na distância Ironman.


Formas alternativas para "treinar baixo, competir alto"

1. Conclua sessões de treinamento mais longas, sem ingerir quaisquer carboidratos.

2. Conclua treinos duros após um jejum noturno (ou seja, sem café da manhã).

3. Conclua dois treinos em um dia, sem a reposição de carboidratos entre os esforços.
As horas gastas em natação, ciclismo e corrida, em preparação para o dia da prova de Ironman, desempenham seu papel para melhorar a utilização de gordura. Mas, algumas pesquisas sugerem que a manipulação da ingestão, pelo aumento de gorduras e diminuição de carboidratos, durante as várias fases de treinamento, indo até o dia da prova (este conceito também é conhecido como "treinar baixo, competir alto") pode conduzir o corpo a confiar mais em sua abundante reserva de gordura (em vez de carboidratos), contribuindo assim para o desempenho no Ironman.


Para testar esses benefícios propostos, faça o seguinte. Por 10 dias antes de uma sessão importante de treinamento de ritmo aeróbico, ou antes de um bloco de sessões de treinamento, ou antes do dia da prova, eleve a composição de gorduras na sua dieta para aproximadamente 65% do total das necessidades energéticas diárias, com foco em gorduras de origem vegetal. Isto irá aproximadamente dobrar a composição [de gorduras] tipicamente consumida, o que significa que a ingestão de carboidratos terá de cair drasticamente, ou as calorias totais serão muito elevadas e o ganho de peso será inevitável.

Então, durante 3 dias antes da sessão de treinos importante, ou antes da prova, implemente um regime de "carbo-loading" [carga de carboidratos], objetivando aproximadamente 4 gramas de carboidratos por libra de massa corporal magra por dia [aproximadamente 8 gramas por kg de massa corporal magra].

De acordo com um estudo realizado com ciclistas de endurance completando 2 horas de spinning com intensidade moderada e um contra-relógio de 20 km, seguir este regime poderá levá-lo 4,5% mais rapidamente à linha de chegada de um Ironman, em comparação com um protocolo típico de carbo-loading.   [Veja os conceitos de "carbo-loading" e massa corporal magra em nosso post O Guia dos Carboidratos para Triathletas.]

Como uma nota de advertência, a pesquisa NÃO suporta atualmente o uso crônico [freqüente] de dietas ricas em gordura para fins de desempenho. Isto é especialmente válido para atletas com protocolos de treinamento que implementam regularmente sessões de maior intensidade (mais de 80% da capacidade aeróbica máxima), tais como treinos de pista e contra-relógio, em que o uso de carboidratos é aumentado e a depleção de glicogênio representa um risco maior para o desempenho.

O uso crônico [freqüente] de dietas ricas em gordura pode também reduzir a capacidade de um atleta quanto a absorver carboidratos, o que, por sua vez, eleva o risco de problemas gastrointestinais, bem como o risco de inibição de desempenho quando "competindo alto".

Por outro lado, os treinos e recomendações prescritas nesta matéria  parecem ser adequadas a um nível muito avançado de atletas... até mesmo profissionais. Portanto, cuidado com esses treinos e recomendações antes de conhecer exatamente todas as suas condições físicas, atléticas e de saúde. Consulte os profissionais de cada área: médico, nutricionista, treinador.


Gordura como um nutriente de recuperação
O estresse do treinamento e da prova de Ironman ocasiona a liberação de compostos prejudiciais, conhecidos como radicais livres, os quais podem penetrar na membrana protetora das células e provocar danos e inflamação. Embora o corpo possua mecanismos de defesa para lidar com a inflamação aguda, o stress de lesões graves ou de exercícios extremos pode levar à inflamação crônica e à ativação de nervos responsáveis pela sensação de dor, comprometendo, desta forma, a recuperação.

Os atletas que não evitam as gorduras, especialmente gorduras insaturadas, se beneficiam dos ácidos graxos essenciais (EFAs) chamados ômega-3 e ômega-6.
O ômega-3 é encontrado nos óleos de semente de linhaça, em nozes, e peixe, enquanto o ômega-6 é encontrado nos óleos de milho, soja, canola, cártamo e girassol.

Os dias em que as gorduras eram consideradas como nutriente proibido terminaram.
No entendimento mais recente, uma dieta rica em gorduras vegetais pode reduzir a inflamação, diminuir o risco de doenças e ajudar na recuperação desportiva.

Adicionalmente, o consumo de uma dieta rica em gorduras durante 10 dias anteriores à implementação de um protocolo de carbo-loading, antes do dia da prova de Ironman, ou antes de algumas sessões principais de treinamento, pode ajudar a iniciar uma resposta favorável, em que o atleta se torna capaz de aumentar a utilização de gordura, poupando assim o glicogênio muscular e melhorando a resistência. [Veja nossa advertência, no tópico anterior!]

Kimberly Mueller, MS, RD, CSSD, é Dietista Registrada e Especialista Certificada em Dietética Esportiva.

Artigo original: Ironman.com
Versão e adaptação: Equipe 3AV


Bons e longevos treinos e provas a todos!

3AV
Marco Cyrino



sábado, 19 de março de 2016

O guia das Proteínas para Triathletas



Esta é a nossa versão / adaptação para a matéria publicada, no site Ironman.com:

The Triathlete's Guide to Protein
por Kim Mueller

Para melhor aproveitar o conteúdo, leia o artigo com atenção e, ao final, veja nossos comentários e advertências.

Veja também a Tabela Resumo que elaboramos para ajudá-lo a utilizar as instruções da matéria.

Nossas anotações, adendos e destaques estão em azul.


Vamos ao artigo...

Em grego, proteína significa "tomar o primeiro lugar", uma façanha à qual os Triathletas aspiram.
Atividades de resistência, especialmente as de duração prolongada, como no Ironman, aumentam as necessidades de proteína.

Estabelecer estrategicamente um timing para a ingestão de proteínas e de alguns de seus blocos de construção - os aminoácidos - durante, antes e depois dos exercícios, pode também melhorar a resposta do atleta ao treinamento.

Entretanto, as coisas se tornam nebulosas ao quantificar esse aumento das necessidades e os detalhes do timing para ingestão.

Leia a seguir sobre as pesquisas mais recentes sobre proteínas, bem como sobre as aplicações para o desempenho em Triathlon.


O básico
As proteínas são simplesmente grandes moléculas que compõem 20% do peso corporal, sob a forma de músculos, ossos, cartilagens, pele, e outros tecidos e fluidos corporais.

Durante a digestão, a proteína dos alimentos é "quebrada" em pequenos aminoácidos utilizáveis, que  promovem o crescimento, a reparação e a manutenção dos músculos, assim como o desenvolvimento de ossos, tendões e outros tecidos.

Há um total de 21 aminoácidos, 9 dos quais devem ser consumidos através dos alimentos (essenciais), 4 dos quais o corpo pode sintetizar por si mesmo (não-essenciais), e 8 cujos níveis precisamos aumentar durante os períodos de lesão, doença ou estresse (condicionais).

Essenciais 
Não-essenciais
Condicionais
Isoleucina
Alanina
Arginina
Leucina
Asparagina
Cisteína
Valina
Ácido aspártico
Glutamina
Metionina
Ácido glutâmico
Tirosina

Fenilalanina

Glicina
Treonina

Ornitina
Triptofano

Prolina
Lisina

Serina
Histidina
(omitido no artigo original)




Durante o treinamento de resistência (especialmente nos esforços incorrendo em grandes déficits energéticos, comuns no treinamento para um Ironman), certos aminoácidos, como a leucina -- um aminoácido de cadeia ramificada (BCAA) -- são extraídos do tecido muscular, como uma maneira de fornecer energia para a contração muscular e prevenir o baixo nível de açúcar no sangue ("exaustão").

Algumas pesquisas mostram que mais de 15% da produção total de energia durante uma sessão de resistência precisam ser derivados de proteína. Além disso, a natureza repetitiva do treinamento de resistência leva à separação física e à quebra das fibras musculares, um processo conhecido como catabolismo.

A ingestão otimizada de proteína ajuda a manter a disponibilidade de aminoácidos, suportando, assim, a síntese de proteínas e conseqüentemente a reparação e o crescimento de tecido muscular. Se não for fornecida uma adequada quantidade de energia derivada de proteína, a reserva de aminoácidos torna-se desidratada, prejudicando o desempenho (devido aos níveis elevados de amônia, causadores de fadiga) e retardando a recuperação (devido aos danos ao tecido muscular).


Quanto é o suficiente?
Para atletas de endurance, a Academia de Nutrição e Dietética e o American College of Sports Medicine recomendam de 1,2 a 1,4 gramas de proteína por kg de peso corporal,.

Alguns profissionais consideram que possa ser necessária uma dose tão elevada quanto 2,0 gramas por kg de peso corporal, para compensar os aminoácidos consumidos durante um exercício extremo e  prolongado.

Em geral, quanto mais longo e duro for o treino, mais proteína você deverá consumir:


Treinamento
Meta de consumo de proteína
(gramas / kg de peso / dia)
Dias de descanso
0,8 - 1,0
<1 hora
1,0 - 1,2
1 - 2 horas
1,2 - 1,4
2 - 4 horas
1,4 - 1,7
4+
1,7 - 2,0


Esteja ciente de que não existem evidências de um maior benefício quando se excede um consumo de proteína de 2,0 gramas/kg/dia. Para doses superiores a 2,5 gramas/kg/dia, têm sido observados efeitos colaterais negativos, incluindo função renal alterada, aumento da carga de amoníaco, excreção de cálcio, pedras nos rins, saúde óssea comprometida, e desidratação.


Timing da ingestão
Além de garantir a ingestão diária ideal de proteína, para suportar as demandas metabólicas e de treinamento básicas, adotar um timing estratégico de ingestão de proteína durante o dia (assim como antes, durante e após o treinamento) poderá ajudar a maximizar as adaptações favoráveis ao treinamento.


Atendendo às necessidades diárias
Considerando que o corpo humano não armazena proteína, o melhor é consumir proteínas distribuídas uniformemente em várias refeições ao longo do dia. De fato, um estudo recente, publicado no Journal of Nutrition, revelou que a síntese protéica muscular é 25% maior quando a proteína é consumida de forma uniforme, ao longo de 3 refeições básicas, em comparação com uma refeição sendo "mais pesada" do que a outra.

Por exemplo, um Triathleta de 150 libras (aprox. 68 kg), realizando um treino de transição de 5 horas, deveria objetivar uma ingestão diária de proteína de 116 a 136 gramas, distribuídas de maneira otimizada, da seguinte forma:


Refeição
Quantidade de proteínas
Alimentos equivalentes
Café da manhã
25 - 30 gramas
1 xícara de iogurte grego
2 colheres de sopa de sementes de Chia
Lanche
15 gramas
2 ovos cozidos
Almoço
25 - 30 gramas
90 g de atum
2 fatias de pão de grãos germinados
Lanche
15 gramas
2 xícaras de sopa de lentilha
Jantar
25 - 30 gramas
90 g de bife
Lanche da noite
15 gramas
¾ de xícara de grãos de soja com casca

Este exemplo se baseia numa dieta preferida / sugerida pela autora.
Evidentemente, você deverá adaptá-la adotando os alimentos que esteja habituado a consumir e considerando os seus respectivos percentuais de proteínas.


Antes do treino
Foi demonstrado que o consumo de 20 gramas de proteína, como parte de uma refeição pré-treino, aproximadamente 1 hora antes de iniciar, previne o excesso de degradação de proteínas dos músculos e permite que a síntese da proteína muscular seja elevada ao longo de uma sessão de treino.

Foi demonstrado um efeito semelhante com o consumo de uma mistura de 6 gramas de aminoácidos essenciais e 35 gramas de sacarose, uma hora antes do treino.

Ambas as estratégias dietéticas podem ajudar o Triathleta a se adaptar melhor ao treinamento físico prolongado, aumentando assim o desempenho.

Uma xícara de iogurte grego light é uma maneira conveniente de consumir 20 gramas de proteína antes de um treino. (* A quantidade de proteína varia grandemente em função da marca, do tipo, do tamanho do potinho de iogurte etc. Portanto, verifique a quantidade de proteína do produto a ser consumido.)


Durante o treino

Soro de leite
A proteína de soro de leite (whey protein) é uma fonte ideal de proteínas para os Triathletas consumirem antes, durante e depois do treino, devido à sua rápida velocidade de digestão e absorção e à sua composição ideal de aminoácidos.

Assim como no pré-treino, o consumo de 20 gramas de proteína, distribuído durante um período prolongado de exercício, parece impedir a quebra de proteína muscular e estimular a síntese protéica muscular, permitindo que o Triathleta responda melhor ao treinamento.

Para evitar a dor de estômago causada pelas proteínas (que exigem mais oxigênio do que os carboidratos, para digestão), manter a ingestão na faixa de 2 a 5 gramas por hora.

A proteína pode ser derivada de alimentos (por exemplo, peito de peru) ou suplementos como bebidas esportivas e barras energéticas contendo proteína.


Pós-treino
Os danos às proteínas musculares e corporais é apenas uma das muitas ramificações metabólicas do treinamento de resistência prolongado.

Portanto, para o período de recuperação pós-treino, é fundamental focalizar a atenção em facilitar a reparação e remodelação músculo - esquelética.

Está comprovado que o consumo de proteínas, na dose de 20-25 gramas, imediatamente após o exercício exaustivo, aumenta a taxa de síntese de proteína muscular, estimula o crescimento de proteína muscular, e aumenta a resposta adaptativa músculo - esquelética ao treinamento de resistência.

O meu favorito pessoal (da autora) para recuperação: misturar (bater no liquidificador) um copo de kefir (bebida feita de leite fermentado) de baixo teor de gordura, uma colher de sopa de cacau em pó, duas colheres de sopa de manteiga de amêndoas, uma colher de sopa de mel e uma banana madura grande (cortar em pedaços e congelar, se você preferir um shake mais grosso).


Resumo
Consumir proteína adequadamente durante o treinamento para um Ironman é uma parte essencial do quebra-cabeças do desempenho.

A meta de ingestão diária de 1,2 a 1,4 gramas de proteína por quilograma de peso corporal é suficiente para suportar os dias de treinamento com duração de 1 a 2 horas.

Nos treinos mais longos, dias de corrida ou de treino de transição, bem como no dia da prova de Ironman, é necessária uma ingestão de 1,5 a 2 gramas por quilo de peso corporal, para compensar a quebra de aminoácidos e facilitar a recuperação muscular.

Parte dessa ingestão deverá ocorrer com um timing de ingestão estratégico de 20 gramas de proteína 1 hora antes, mais 20 gramas durante e, ainda, mais 20 gramas imediatamente depois. O restante da meta de ingestão deverá ser distribuído uniformemente por várias refeições.



Kimberly Mueller, MS, RD, CSSD é Dietista Registrada e Especialista Certificada em Dietética Esportiva.

Artigo original: Ironman.com
Versão e adaptação: Equipe 3AV



Comentários e advertências

1- Teores de proteínas diferentes em cada alimento
Ao utilizar a nossa Tabela Resumo e fazer os seus cálculos para descobrir as quantidades de proteínas a ingerir, não deixe de levar em conta que cada alimento possui um percentual diferente de proteínas.

Por exemplo, supondo que você calcule que precisaria ingerir 50 gramas de proteínas numa certa situação e supondo que tenha optado por um alimento que contenha 50% de proteínas, concluímos que será necessário ingerir 100 gramas desse alimento para obter os 50 gramas de proteínas.
O mesmo se aplica a cada uma das fontes de proteínas indicadas no artigo.

2- Nem só de proteínas sobrevive o Atleta
Ressaltamos a importância de cuidar de maneira integrada tanto das proteínas quanto dos carbos (v. nosso post) e da hidratação. 
Ainda, são de suma importância o descanso e a recuperação no período de treinos.

3- Saúde em primeiro lugar
Atletas que tenham quaisquer restrições de saúde ou condições médicas especiais (p.ex., diabetes, alergia etc.) deverão sempre consultar seu médico antes de adotar quaisquer orientações de dietas.

Tabela Resumo
Esta tabela apenas resume os dados numéricos do artigo, para facilitar os cálculos para os Atletas.

A leitura atenciosa do artigo é indispensável para compreensão das suas condições de uso das fontes de proteínas.

Não nos responsabilizamos pelas conseqüências do uso inapropriado das informações aqui contidas.

Para saber o quanto ingerir
Multiplique os valores marcados em amarelo pelo seu peso corporal.

Os valores marcados em azul já são as quantidades a ingerir, em gramas, independendo do seu peso.

Para facilitar
1 - Anote aqui o seu peso corporal: ____ kg.

2- Multiplique seu peso corporal pelos valores indicados em amarelo, da coluna "Recomendações".

3- Anote os resultados nas linhas correspondentes, na coluna "Ingerir".


Situação para uso das proteínas
Recomendações do artigo, em gramas de proteína por kg de peso corporal, por dia
Tipos de proteínas
Ingerir
Dias off
0,8 - 1,0 g/kg
Distribuir ao longo do dia
_____ gramas
Treino < 1 hora
1,0 - 1,2  g/kg
Distribuir nas refeições ao longo do dia e antes, durante e após o treino
_____ gramas
Treino 1 - 2 horas

1,2 - 1,4  g/kg
Distribuir nas refeições ao longo do dia e antes, durante e após o treino
_____ gramas
Treino 2 - 4 horas
1,4 - 1,7  g/kg
Distribuir nas refeições ao longo do dia e antes, durante e após o treino
_____ gramas
Treino superior a 4 horas
1,7 - 2,0  g/kg
Distribuir nas refeições ao longo do dia e antes, durante e após o treino
_____ gramas

Acima de 2,5 g/kg, há evidências de sérios efeitos colaterais


//////////
Antes do treino (quantidade já incluída nos consumos diários acima)
20 gramas
Aprox. 1 hora antes de iniciar
20 gramas
Durante o treino (quantidade já incluída nos consumos diários acima)
20 gramas
Distribuir aprox. 2 a 5 gramas por hora
20 gramas
Após o treino (quantidade já incluída nos consumos diários acima)
20 a 25 gramas
Imediatamente após o treino
20 a 25 gramas

Exemplo:
Um atleta pesando 70 kg, num dia de treino de mais de 4 horas, deveria ingerir  1,7 a 2,0 g/kg de proteínas, ao longo do dia.
Fazendo as contas (multiplicando por 70), ele deveria ingerir de 119  a 140 gramas de proteínas ao longo do dia.
Supondo que ele opte pelo máximo de 140 gramas ao longo do dia, seriam 20 g antes, 20 g durante e 20 g depois do treino, restando ainda 80 gramas a serem consumidas distribuídas nas refeições.



Bons e longevos treinos e provas a todos!

3AV
Marco Cyrino

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