Recentemente, em uma
conversa despretensiosa com meu irmão, terminamos refletindo sobre as marcas
que o tempo e o movimento deixam em nós.
Ele me contava sobre as suas
experiências na juventude, em esportes principalmente de explosão (karate e 100
metros rasos), enquanto eu relembrava minha própria jornada: os muitos anos de
surf e futebol, os longos treinos, os 7 Ironmans completados, a honra de
conquistar o 13º lugar no Mundial de Challenge na Eslováquia.
Hoje, aos 69 anos
praticamente, estou retomando os trotes na praia e o trabalho de força na
musculação.
E
algo que me tem gratificado, além daquela sensação de missão cumprida que
acompanha o cansaço, é a velocidade com que o corpo responde.
É
como se a musculatura, o metabolismo e a mente estivessem esperando um sinal de
partida para religar os motores.
Essa experiência me fez
pensar sobre Memória Corporal, como
um todo.
A memória vai muito além dos músculos
Quando falamos em
"memória muscular", a ciência costuma explicar o fenômeno através do
número de mionúcleos(1) mantidos nas fibras musculares mesmo após longos
períodos de inatividade.
(E
olha que, no meu caso, já se vão quase 8 anos de “semi-inatividade”).
Mas, quem viveu o esporte
de alto rendimento por décadas, sabe que a memória do corpo é algo muito mais
amplo e complexo.
Ela é um acervo biológico integrado:
Memória Neuro-Articular
O
cérebro não esquece os padrões de movimento, a propriocepção(2) e a eficiência
biomecânica. A postura para correr, o ritmo da respiração e o recrutamento das
fibras musculares corretas continuam gravados no sistema nervoso central.
Memória Metabólica e Cardiovascular
Anos
de treino aeróbico expandem a rede de capilares, otimizam a função das
mitocôndrias(3) e ensinam o corpo a utilizar energia de forma eficiente.
Quando
voltamos a nos exercitar, o sistema cardiovascular e metabólico
"reconhece" o estímulo muito mais rápido do que o de alguém que nunca
treinou.
Memória Mental e Psicológica
A
capacidade de tolerar o desconforto, de manter a disciplina e de escutar os
sinais do próprio corpo é algo que se desenvolve no esporte e que permanece
para a vida toda.
Nossa
bagagem esportiva, seja de explosão, como nas corridas de velocidade, ou de alta
resistência, como no Triathlon, cria uma poupança
biológica.
Tempo, Sarcopenia, Longevidade
A
partir dos 40 anos, todos nós enfrentamos um processo biológico inevitável: a
sarcopenia (perda progressiva de massa, força e qualidade muscular).
Se
nada for feito, esse declínio se acelera a cada década.
Para
quem acumulou massa muscular e capacidade aeróbica ao longo da vida, a
sarcopenia ainda acontece, mas partindo de um patamar muito mais alto.
Porém,
essa bagagem não nos torna imunes.
Ela
apenas nos dá uma vantagem inicial.
O
corpo precisa ser provocado para manter o que conquistou.
O efeito inverso: Inércia Biológica
Durante
aquela mesma conversa, lembrei de um caso conhecido: um senhor da nossa faixa
etária, na casa dos 60 anos, sem doença crônica diagnosticada (que eu saiba),
mas com dificuldades severas para realizar tarefas simples, como caminhar com
fluidez, ou subir lances de escadas.
Ao
que tudo indica, não se trata de uma patologia grave, mas sim do resultado acumulado
de inatividade física.
Assim
como o exercício cria uma memória de eficiência e vitalidade, o sedentarismo
prolongado cria uma memória de inércia.
As
articulações travam por falta de uso, os músculos atrofiam, os reflexos
diminuem e a autonomia se perde.
A
fragilidade da idade, muitas vezes, não é resultado do tempo, mas da ausência
de movimento.
Nunca é tarde para reativar a Poupança Biológica
Felizmente,
o corpo humano é fabulosamente adaptável.
Seja
um ex-atleta tentando reconectar-se com sua história esportiva, ou alguém que
passou a vida longe dos treinos, o organismo sempre responde ao estímulo
adequado.
Finalizando...
Retomar
os meus trotes na praia e o fortalecimento muscular não é uma tentativa de reviver
os tempos de Ironman ou o ritmo da Eslováquia.
Trata-se
de honrar a saúde atual e garantir autonomia para as próximas décadas.
Sua
história com o movimento determina a rapidez com que o seu corpo responde hoje.
Mas,
é a sua atitude de agora que definirá como você viverá os próximos anos.
Ah!
antes que eu me esqueça.
Nossas
panturrilhas, mais conhecidas como as “batatas das pernas”, são o segundo
coração do nosso corpo.
Movimente-se!
O seu corpo saberá como reagir.
3AV
Marco Cyrino
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NOTAS
(1) Mionúcleos
São os núcleos celulares localizados dentro das
fibras dos músculos esqueléticos.
Controlam a produção de proteínas e ajudam no
crescimento, na manutenção e no reparo do tecido muscular.
Derivam de células especiais chamadas
células-satélite.
Quando fazemos exercícios de força, essas células
se fundem à fibra muscular e adicionam novos mionúcleos.
(2) Propriocepção
Também chamada de cinestesia, é a capacidade do
corpo de perceber sua própria posição, orientação e movimento no espaço, sem
depender da visão.
Considerada o "sexto sentido" do
organismo, ela envia sinais contínuos ao sistema nervoso central para ajustar o
equilíbrio, dosar a força muscular e garantir a precisão dos movimentos de
forma consciente ou inconsciente.
O cérebro recebe dados em tempo real, através
de receptores sensoriais chamados proprioceptores, que estão localizados em:
·
Músculos (fusos musculares): medem o comprimento e o estiramento
das fibras.
·
Tendões (órgãos tendinosos de Golgi): monitoram a força e a tensão
muscular aplicadas.
·
Articulações e ligamentos: identificam a angulação, velocidade e
direção do movimento.
·
Ouvido interno (sistema vestibular): atua em conjunto para manter o
equilíbrio postural.
Importância no dia a dia e no esporte
·
Prevenção de lesões: permite reações rápidas a imprevistos, como
corrigir o passo ao pisar em um buraco falso ou tropeçar.
·
Consciência corporal: possibilita caminhar sem olhar para os pés ou,
por exemplo, tocar a ponta do nariz com os olhos fechados.
·
Desempenho esportivo: melhora a estabilidade articular, a agilidade
e a aterrissagem precisa após um salto.
·
Longevidade: reduz o risco de quedas em idosos ao aprimorar o
controle postural.
(3) Mitocôndrias
São estruturas celulares conhecidas como as
"usinas de energia" do corpo, com destaque para a produção de ATP, a
respiração celular e a presença de DNA próprio.
Transformam os nutrientes dos alimentos e o
oxigênio que respiramos, na força que a célula precisa para funcionar.

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